Uma visão de cidade sustentável: triplo metabolismo

Não com o intuito de usurpar do conceito das três ecologias de Félix Guattari, mas sim prestando uma homenagem ao criador desta referência, e tendo em vista as questões específicas do século XXI, nos parece claro que os territórios em geral, e as cidades em particular, tem interesse a construir suas ações a partir do conceito-chave de metabolismo; o metabolismo aplicado ao corpo humano ou então a uma empresa, mesmo que este não seja o assunto principal deste artigo.

O conceito de metabolismo, emprestado da medicina aos ecologistas e aos estudos sobre ecossistemas, foi explorado primeiramente pela ecologia industrial e em seguida em urbanismo nos trabalhos de Eckart Hahn[1]. Observando o funcionamento de nossos sistemas de produção e das cidades em ciclos abertos, a necessidade de readaptar os ciclos de matéria e energia dando características circulares surge como evidente, espelhando-se nos ciclos da natureza, como a utilização da palavra simbiose para descrever o projeto de ecologia industrial de Kalundborg[2] na Dinamarca, pioneira nesta matéria. Estas são as ideias apresentadas na economia circular em voga, utilizados tanto na política quanto nos meios de comunicação.

Além disso, vemos que o sistema econômico está em crise, a tal ponto que o seu indicador principal – o PIB – representa a avaliação da saúde da economia, é colocada em questão sem que o sistema (o mainstream) enfrente esta problemática nem o trate como um assunto. Continuamos a falar do PIB para medir nosso crescimento, como se fosse um motor capaz de crescer infinitamente esquecendo que os recursos do planeta são finitos (como o ônibus espacial com o qual Buckminster Fuller compara o planeta Terra[3]), mesmo se estes não foram ainda esgotados. A economia circular é certamente uma boa maneira de transformar nosso sistema de produção, contudo não devemos esquecer que a própria noção de crescimento também deve ser questionada.[4]

Na legislação francesa, a transição energética se junta à transição ecológica, com o voto da lei de 4 de outubro de 2014, o crescimento da consciência sustentável. Os legisladores realizaram um bom trabalho integrando as interdependências das atividades humanas com o planeta e seus ecossistemas. Há também o consenso sobre o fato que estamos em uma etapa de transição, em direção a uma vida mais virtuosa? Em direção de um equilíbrio entre recursos e consumos, entre pegada ecológica e biocapacidade?

A transição realizada faz referência a uma situação de pesquisa de acordo com o contexto marcado pelas mudanças climáticas, o esgotamento dos recursos e o aumento constante dos impactos da atividade humana e sobre as condições de vida das populações: qualidade de vida e saúde, preocupações crescentes nos países ‘desenvolvidos’ e ‘emergentes’ (qualidade do ar, segurança alimentar… são temas cada vez mais centrais na mídia).

Um certo número de parâmetros e valores quantitativos existem: o Fator 4 ao horizonte de 2050 (as emissões de CO2 devem ser reduzidas a ¼ em comparação a 1990) assim como não ultrapassar os 2°C (ou 350/450 ppm de CO2), ou os 1,5°C introduzidos pelo acordo de Paris na COP21, o conceito de suficiência do planeta correlacionado ao « overshoot day » baseado na pegada ecológica[5], e também a dependência energética e alimentar (importação de petróleo, número de dias de reserva alimentar,…).

Estes aspectos globais devem ser vinculados às realidades locais dos diversos territórios. Crise do emprego, diminuição da população, degradação dos ambientes urbanos e rurais, são alguns dos problemas generalizados de pequenas e médias cidades na França e no Brasil.

Neste contexto, « Agir local, pensando global » faz todo o sentido. É necessário construir uma prática profissional que leve em conta o conjunto de problemáticas desenvolvendo ferramentas operacionais precisas. Estamos convencidos que a pegada ecológica, autonomia energética e alimentar se tornarão os novos parâmetros no planejamento territorial que a PADD[6], os SCOT[7], e outros documentos integrarão em breve.

Trata-se de definir um território e agir a partir de três níveis de metabolismo interdependentes:

  • O tecido urbano
  • Os fluxos de matéria e de energia
  • A redes sociais, reais (além das virtuais)

Há diversos projetos de requalificação urbana viabilizados por financiamentos públicos. As iniciativas de ecologia industrial catalizadas pelo setor privado são igualmente desenvolvidas junto também à sociedade civil, em particular empresas que utilizam o resíduo alheio como seus insumos. Nossa abordagem na Verteego consiste na recomendação de monitoramento através da ferramenta de relatórios Verteego colocando em perspectiva os dados ligados a estes três campos de ação para a realização de projetos de transformação para alcançar a resiliência necessária à sustentabilidade[8]. Trata-se da disponibilização de métricas a facilitar a identificação de relações, de ciclos, de potencialidades, para em seguida operacionalizar a ferramenta de análise favorizando aos usuários a identificação de novas relações em prol da análise. Em outras palavras, uma vez que a estratégia da unidade territorial em causa é definida e parametrizada no sistema, a plataforma Verteego pode coletar, realizar cálculos e restituir os indicadores necessários à cartografia de relações potenciais, ou seja, a transformação dos ciclos abertos em ciclos fechados, a fim de definir os fluxos dos metabolismos.

O tecido urbano

As cidades e unidades territoriais possuem numerosos terrenos baldios, construções que apresentam um certo potencial de transformação e/ou melhorias em termos de eficácia no uso, no consumo e mobilidade. Frente à tendência de expansão urbana generalizada, o olhar sobre o existente deve ter o objetivo da criação de valor através do aumento da intensidade de uso e da transformação de instalações existentes das quais podemos caracterizar como “não-metabólicas”. A inclusão destes projetos dentro de esquemas às diferentes escalas permitirão lhes atrelar a níveis de coerência mais amplos.

Os fluxos de materiais e energias

O que entra e o que sai de uma cidade ou de uma unidade territorial são os elementos básicos para estabelecer um balanço de fluxo de energia e materiais. Sem querer realizar o trabalho de ecologistas industriais, nossa abordagem busca identificar fontes e ganhos potenciais a partir de dados das operações do perímetro estudado. Apoiando-se nos consumos “fatais” (despesas inevitáveis da população) tais como eletricidade, alimentação, tratando-se de estabelecer uma correlação entre as necessidades e os recursos para se desenvolver uma produção local para estes produtos, aproveitando-se dos benefícios evidentes decorrentes para a economia local como o aumento do emprego, redução de GEE, etc. A abordagem de metabolismo se orientará progressivamente a: resíduos zero, energia positiva, ciclo de água fechado.

Redes sociais não virtuais

As transições energéticas e ecológicas não poderão ocorrer sem uma implicação forte da sociedade. O entrelaçamento entre os usos e usuários no tecido urbano, suas inovações nos fluxos de matéria e energia, farão um elemento chave para que as unidades territoriais possam alcançar o nível de resiliência desejado. Através de uma cartografia sensível[9], o trabalho se completa pelos atores locais, com sua participação. O “bottom-up” se junta ao “top-down”, as iniciativas cidadãs presentes na unidade territorial se integram ao metabolismo global (à lógica de looping do metabolismo global).

Nos resta garantir às partes interessadas o acesso aos indicadores de performance de qualidade para verificar a relevância das políticas a melhorar o metabolismo da unidade territorial. Sobretudo às indústrias, que criam empregos e valor agregado às unidades territoriais ao mesmo tempo que possuem uma pegada ecológica importante, também devem responder às questões de uma Cidade Sustentável. Este também é o sentido da minha atuação na Verteego na área de P&D de Cidades Sustentáveis: tornar acessíveis e comunicáveis estas métricas econômicas, sociais e ambientais para um maior número de envolvidos nesse esforço coletivo, necessário frente ao constrangimento de recursos nas zonas urbanas que ocasionarão novas eras de transição e desenvolvimento.

 

Escrito por Daniel Kaufman, P&D Cidades Sustentáveis na Verteego, janeiro de 2016

 

[1] Eckart Hahn, urbanista alemão

[2] Kalundborg e seu ecossistema industrial, desenvolvido nos anos 1980

[3] Buckminster Fuller, Our Spaceship Earth, 1955

[4] Tim Jackson retomar a fórmula de Ehrlich para sinalizar que a somente a análise de intensidade tecnológica é insuficiente para representar os impactos ambientais, a população e o nível de renda como outros fatores da formula “Prosperidade sem crescimento”

[5] « Ecological footprint » et « Overshoot day », dois conceitos vindos das pesquisas de Wackernagel & Rees

[6] PADD = Planejamento Espacial e de Desenvolvimento Sustentável [acrônimo vindo de Projets d’Aménagement et de Développement Durables]

[7] SCOT = Sistema de Coerência Territorial [acrônimo vindo de Schéma de Cohérence Territoriale]

[8] Frente à contradição e paradoxos próprias da noção de « desenvolvimento sustentável » nos parece preferível a noção anglo-saxã de « Sustainability » ou a noção germanofona de « Nachhaltigkeit »

[9] A partir dos trabalhos de Thierry Payet nestes últimos anos