Gestão Empresarial do Impacto Social

A CEBDS promoveu, no dia 6 de julhoCEBDS post imp social de 2016 na FIESP, um evento para lançamento de sua publicação “Gestão Empresarial do Impacto Social”. O estudo, realizado pela Câmara Temática de Impacto Social da Organização (CTSocial) com o apoio da Plan Políticas Públicas, traz uma análise ampla da atuação das companhias e seu impacto social com foco em 4 grandes segmentos (como não poderia ser diferente, com características e impactos distintos) para alimentar a discussão no ambiente corporativo.

Interessante ressaltar que o enfoque foi no impacto social da atividade, e não nas suas ações de investimento social ou responsabilidade social corporativa. Para ilustrar esta diferença, seguindo o exemplo contido na publicação, o impacto decorrente da atividade de uma siderúrgica é a explosão populacional desordenada em seu entorno e não um programa para jovens de baixa renda realizarem práticas esportivas.

Há, sem dúvida, espaço para avançar na definição de indicadores sociais. Em outras palavras, mesmo contando com os nortes dados pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), é notório que os indicadores ambientais e econômicos estão mais bem encaminhados que os sociais.

Frente a esta importante caminhada, o CEBDS lança esta publicação com o intuito de promover as metodologias aplicadas com mais sucesso entre seus associados, ressaltando as diferenças frente aos segmentos de atuação. A natureza e o grau de influência da relação da empresa com a sociedade varia em forma e intensidade. Estas questões sociais podem ser constituídas de aspectos objetivos (ex.: número de empregos diretos e indiretos) ou subjetivos (opinião pública sobre a atividade da empresa).

Fabio Abdala, Gerente de Sustentabilidade da Alcoa e presidente da CTSocial, ressaltou as múltiplas dimensões do impacto social retratado na publicação. Há, evidente, impactos positivos decorrentes do engajamento de partes interessadas, tais como: desenvolvimento de vantagens competitivas, antecipação de ameaças à operação da empresa, redução de riscos operacionais e imagem, além da geração de valor compartilhado.

Fabrizio Rigout, da Plan Políticas Públicas, apresentou o estudo descrevendo as principais características dos setores que o compõem – extrativo e indústria de base, bens de consumo, varejo e serviços e finanças e seguros – e a metodologia implantada: grupos focais com os integrantes da CEBDS complementadas com entrevistas na academia e no 3º setor. Pontuou igualmente a importância do monitoramento constante dos indicadores e de avaliação periódica sobre os impactos negativos (que devem ser identificados e propriamente mensurados).

Segue um breve apanhado dos setores do estudo:

Setor extrativo e a indústria de base

Os locais de operação de uma indústria sofrem impactos significativos dos pontos de vista sociais e ambientais. Apesar do longo período exposto a estes impactos, o período limitado possibilita análises comparativas de acordo com a etapa da atividade. É fundamental que estes indicadores sejam criados a partir do diálogo da empresa com as partes interessadas, estes auxiliarão nos aspectos críticos. Alguns exemplos de indicadores de impacto na publicação: geração de empregos indiretos, arrecadação de impostos e royalties, e fortalecimento institucional. Recente, porém bastante coerente com o tema gestão de impacto social, é o conceito de Licença social para operar* que demonstra como o setor assimilou os benefícios da harmonia junto às comunidades vizinhas e impactadas.

Bens de consumo

Com cadeias de produção, distribuição e consumo extremamente complexas, o estudo definiu 4 partes interessadas (fornecedores, clientes, consumidores e comunidades) como as mais críticas para a indústria de bens de consumo. O destaque para a análise do setor é a busca pela “pegada de pobreza”, na qual o objetivo é mensurar os impactos sociais de uma empresa na parcela mais pobre da população da área em que atua, focando em um grupo específico para obter resultados mais precisos. Outra ferramenta de avaliação importante para este setor é o Social Life-Cycle Assessment** ,que para todo o ciclo de vida de um produto define objetivos, analisa, avalia e interpreta os impactos relacionados a partir de indicadores sociais. Para diminuir os impactos negativos relacionados à cadeia de produção, a GAP inc. (rede mundial de lojas de varejo), por exemplo, tem destaque por sua política de compliance social, com o monitoramento de condições de trabalho, práticas operacionais, risco reputacional, etc., a fim de determinar o potencial da empresa em causar impactos ou de modificar situações indesejáveis.

Varejos e serviços

Em consequência do uso intensivo de mão de obra, a indústria de varejos e serviços tem como aspecto fundamental os colaboradores, que são também as principais partes interessadas deste setor; assim como os consumidores, já que a visibilidade e boa reputação da empresa são essenciais, ou seja, é fundamental para o setor que o cliente esteja sempre próximo. Os métodos de avaliação de impacto social destes setores são específicos de acordo com o segmento da empresa, já que o grau de influência destas empresas é ilimitado e menos evidente quando se trata apenas da prestação de serviços. Alguns aspectos chave dos impactos sociais causados pelos setores de varejo e serviços são (principalmente em consequência da contratação de muitos jovens) a mobilidade social, qualificação profissional, comparação de salários, bem estar social, etc., que compões os indicadores de impactos sociais, que são determinados em conjunto com as partes interessadas.

Finanças & seguros

Fundamentais para o funcionamento de qualquer economia, as instituições financeiras têm relação com uma gama diversa de partes interessadas, como acionistas, funcionários, clientes e fornecedores. No caso das instituições públicas, os bancos de fomento (BID e BNDES, por exemplo) estão à frente no que diz respeito à avaliação de impactos sociais de aspectos como a redução da pobreza, geração de empregos em melhoria de condições sociais relacionados a seus programas de financiamento. As instituições privadas avaliam os impactos sociais de suas operações através de métodos como o da “diferença das diferenças”, (onde é feita a comparação da evolução de duas áreas com características semelhantes, porém apenas uma destas áreas sofre influência da instituição, ao final da avaliação, as diferenças encontradas entre estas áreas definirão os impactos sociais identificados), a fim de quantificar os benefícios de cunho social de seus programas. No setor de seguros, há uma deficiência na avaliação de impactos sociais entre as classes menos favorecidas, apesar da percepção da sua contribuição para a estabilidade econômica. Serviços como os de seguros-saúde acessíveis e de agricultura familiar, por exemplo, podem ser objetos de estudos e avaliações.

Mariana Marques, da Votorantim cimentos acrescentou que a publicação da CEBDS fortalece o papel da sua empresa, que é uma indústria extrativista e por isso tem uma relação duradoura, apesar de limitada com sua área, cidade de influência, que pode chegar a 100 anos de permanência. Um exemplo de atuação da Votorantim cimentos é a inauguração de uma planta em 2016, que conta com um investimento social desde 2011 como preparação para a população e identificação de valores comuns para a criação de uma relação de confiança e benefícios em longo prazo.

*Licença social para operar: entendida como a percepção de legitimidade e aceitação da empresa pelas partes interessadas, com destaque às comunidades impactadas.

**Social Life-Cycle Assessment: S-LCA, inspirado na Environmental Life-Cycle Assessment, que tem suas bases na ISSO 14044:2006.